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Bons rapazes, grandes Homens

Bons rapazes, grandes Homens

Level Up - Part I

30.09.18 | Jack Sparrow

Como poderei fazer decisões que me coloquem mais perto do homem que eu quero ser?

 

Todos os dias sou confrontado pelo homem que eu quero ser. Ele olha me através do espelho sempre que faço a  barba. Consigo ver as perguntas nos seus olhos. Algumas vezes enfrento-o; mas muitas vezes desvio o olhar, com receio de não ter respostas que ele goste. A sua principal questão é, porém, uma das mais difíceis que alguma vez irei enfrentar enquanto homem, e por isso é que é tão importante descobrir a resposta desta questão e que é muito simples, mas ao mesmo tempo também complexa. Ele apenas quer saber o que é que eu estou a fazer para crescer.

 

Ser humano é a dor de existir entre a pessoa que somos e a pessoa que queriamos ser,  enquanto tentamos reconciliar as diferencas. Se eu estiver motivado para ser a melhor versão de mim mesmo em todos os campos desde negócios, relacionamentos, família como também para os meus valores pessoais, então estarei sempre a almejar pegar no “eu” real e levá-lo para o “eu” futuro. 

 

Um vazio existe entre os dois, entre a realidade e a possibilidade, e isto é o que nos conduz em direcção a motivação ou depressão. Quando encontramos esta dicotomia iremos resistir à mudança? Aceitar? Escapar? Será que tenho, na realidade, algum controle sobre sítio? Deambulo muito sobre o que foi mal feito? Consigo-me perdoar por isso?

 

Alguns encontram conforto na negatividade, (aceitar, escapar, lutar) e resignam-se a isso, eu também o fiz por algum tempo, é mais fácil. Pensava muito no que teria feito de mal, perguntava-me porque é que eu era alguém que eu não queria ser, perguntava-me onde tinha falhado. Esta negatividade destruiu-me. Procurava escapismo através do qualquer coisa… sexo, álcool, demasiada televisão, conversa de gajos, ou masculinidade sobreexagerada (aquela parte onde dizia a mim mesmo que eu consigo consertar tudo).

 

Mas rapidamente comecei a olhar para este vazio como um desafio, como uma oportunidade para crescer e me tornar o tal homem que que queria ser. Tal como as serpentes, largamos a pele e renascemos mais fortes, maiores, e melhores que antes. A verdade é que a diferença entre o que somos no presente e naquilo em que nos tornamos, é uma profecia que se auto-realiza. Se olharmos para este vazio como uma oportunidade de crescimento pessoal, então ganhamos; se abordarmos este vazio com uma atitude derrotista, então é seguro que vamos perder. 

 

Se este vazio entre quem somos no presente e quem queremos ser já não fosse de si demasiado complicado, adicionemos mais um ingrediente a mistura: a sociedade diz quem devemos ser. Enquanto o vazio referido acima requer apenas conhecimento autonomo e independente sobre o homem que eu sou e o homem que que quero ser, chega a Sociedade e exige que me aperceba do papel mutável que eu tenho que interpretar no conceito mais abrangente de homem social e familiar

 

Isto quer dizer que as vezes é suposto eu ser duro, mas não todas as vezes. Outras vezes quer dizer que tenho de ser bondoso, mas não todas as vezes. E em relação às mulheres, também não posso ser muito aberto em relação aos meus sentimentos, porque isso irá fazer disparar cinquenta tipos de alarmes (no pun intended) dentro da cabeça dela (been there, done that, got a t-shirt saying I wasn't right in the head).

 

Tenho de parecer envolvido, mas não assim tão envolvido nela.

 

Fico com a cabeça às voltas só de pensar em tudo isto. Como posso eu ganhar sobre mim mesmo, nos negócios, no amor que almejo, e ainda ser aceite como homem social pela sociedade? Talvez o motivo pelo qual tanto homens ajam como rapazes e passem tanto tempo a jogar vídeo-jogos na PS4, passem tempos uns com os outros e nem sequer tentarem realizar o seu verdadeiro potencial é porque estão assustados pela teia social de expectativas em como um homem deve ser.

 

Claro que um homem não pode admitir este medo, e então fica paralizado pelo pesado fardo de andar constantemente a tentar crescer, e neste processo reverte para um estágio onde ele estava plenamente em controlo - a infância.

 

Talvez por isso existam tanto homens-meninos a caminhar pelas ruas hoje em dia. Parecem-se como homens mas agem como meninos. O pior,  é que estamos a obrigar as mulheres a aceitar isto. Mulheres que são fortes, com princípios, mulheres com valor, que merecem muito mais e melhor, são relegadas para escolher entre um vagabundo de 30 e poucos anos que trabalha numa posição sem futuro e gasta as suas noite a beber com os amigos, e entre o profissional que ainda pensa que é aceitável portar-se como caloiro de universidade e que pode usar as mulheres para as suas necessidades. Onde fica o crescimento pessoal no meio disto?

 

Os homens olham para si mesmos e não se sentem como homens. Se houvesse uma questão sobre a ignorância dos homens, este próprio texto, que tenta dar a minha visão na tentativa de descobrir o que eu sou, é o perfeito testemunho que exemplifica quão mau o problema se tornou e a falta de respostas que existem. Homens nao tem os mesmos marcadores de maturidade que as mulheres tem, não podemos carregar filhos, não perdemos as nossas capacidades reprodutivas até muito tarde, nao temos marcadores físicos externos que nos indiquem em que fase do percurso da masculinidade nos encontramos.

 

E por esta mesma razão é que devemos analisar onde estamos, quem somos, para onde queremos ir e quem queremos ser, e isto reveste-se da maior importância. Se nos lançarmos a um objectivo definido a longo prazo e trabalharmos em direcção a ele um pouco todos os dias, começaremos a ver o homem em que nos queremos tornar. Podemos olhar para o espelho e ver aquele rosto a sorrir de volta para nos. Nos sorrimos também, sabendo que mesmo que não tenhamos conseguido fazer tudo bem, pelo menos estamos a caminhar na direcção certa. E nessa altura eu consigo confrontar o homem no espelho. 

Então como poderemos tomar decisões que nos ponham em marcha rumo ao homem que queremos ser, e como vamos lidar com os desafios e falhanços que irão indubitavelmente aparecer ao longo da estrada?

 

Por experiência própria, apenas posso dizer que comprometer me a fundo nisto  tem sido a experiência mais assustadora, e ao mesmo tempo mais excitante que alguma vez fiz na minha vida. Comprometer-me a fundo fez me perceber que eu não controlo a minha própria vida, e isto pede mais coragem do que eu alguma vez precisei de ter. Nesse momento já não estava a sofrer nem estava despedaçado. Tinha saído do invólucro que uma vez ocupei, deixando para trás o fardo que carregava, sabendo que uma vida desfeita seria a perfeita oportunidade para criar uma  vida eu mesmo. Este foi o meu primeiro marcador de maturidade.