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Bons rapazes, grandes Homens

Bons rapazes, grandes Homens

Amor e Perda

21.08.18 | Jack Sparrow

Reacção ou proactividade - qual o melhor conceito para uma eficaz recuperação emocional?

 

Perder alguém que amamos é duro. Muito duro. E por dizer duro, quero mesmo dizer que é quase impossível de superar. Invade cada aspecto da nossa vida, afecta o apetite, o sono, os nossos círculos sociais, os hobbies, o trabalho. Deixa um fosso aberto onde felicidade costumava residir. A perda também nos ensina uma gigante lição de vida: o tempo não cura todas as feridas. O tempo é cruel e punitivo. O tempo obriga-nos a olhar para trás com a simultaneidade de nos empurrar para a frente, mas o que de certeza não faz, é tornar as coisas mais fáceis.

 

Contudo, algo eventualmente acontece, e vamos aprendendo a encher o fosso com coisas novas. Tentamos encontrar formas de viver que magoam menos. Sabemos que nunca iremos ficar completamente curados, mas secretamente desejamos que um dia fique apenas a cicatriz em oposição a uma ferida aberta, mesmo que seja uma cicatriz que nos cause dor quando o tempo muda ou se apenas dormimos sobre ela.

 

Há uma valiosa distinção a fazer entre o tempo e o preenchimento do fosso na nossa vida. O tempo irá passar inexoravelmente sem olhar as nossas acções e inacções, para ele é igual; e essa é a sua maldição: ele nunca pára, para ninguém ou nada. Já preencher o fosso vazio na nossa vida é um processo completamente diferente já que compreende o nosso compromisso e dedicação na procura de momentos novos e significativos. Ainda que seja preciso algum tempo até que estejamos prontos a sair da zona de conforto e autocomiseração, o tempo em si não é suficiente para que este momento chegue. O tempo por si, não o consegue fazer já que a única coisa que realmente faz, é avançar. Temos de ser proactivos no nosso processo de recuperação. Temos de sair do sofá ou da nossa gruta, para fora de casa, e encontrar algo que tangível de preencher esse fosso vazio.

 

Para percebermos a diferença entre o que eu chamo de recuperação proactiva e reactiva em perspectiva, vou tentar exemplificar recorrendo a dois dias similares mas tremendamente diferentes:

 

O primeiro dia começa com um apagão de electricidade as tres da manha, e por cause dele, o alarme não toca (nao existem smatphones, xiu) e acabamos por ficar a dormir. Após andarmos a pressa para nos prepararmos, vamos então em excesso de velocidade em  direcção ao nosso emprego e somos parados por um polícia, que não só nos passa uma multa por excesso de velocidade, como nos faz chegar ainda mais atrasados. Já no trabalho, o nosso patrão questiona o motivo de termos chegado tarde, o que nos leva a  endereçar um chorrilho de desculpas em como nao é a nossa culpa mas sim de uma série de eventos fortuitos e que levaram ao nosso real e efectivo atraso. O patrão não aceita a desculpa e emite uma repreensão verbal. Saímos dali a sentirmo-nos ainda pior do que quando o alarme não tocou e que quando quando o policia nos passou a multa. Ficamos em baixo e a nossa performance laboral sofre com isso. Depois do trabalho, despejamos nos nossos amigos sobre a porcaria de dia e vamos para casa, ficamos enrolados no sofá, vemos netflix até altas horas e pensamos que nós temos sorte nenhuma por estas coisas acontecerem sempre conosco. Dormimos  mal e o processo repete-se no dia seguinte.

 

O segundo dia começa exactamente na mesma forma, há um apagão às três da manhã e adormecemos. Mas contudo, e em vez de nos apressarmos para fazer tudo ao mesmo tempo, e entrar em excesso de velocidade para o trabalho, decidimos sentar e respirar,  ter calma e delinear um plano de acção. Decidimos que o melhor curso de accao é informar o nosso patrão para explicar o sucedido. Fazemos café, tomamos um bom banho e vestimos a roupa de trabalho. No carro, já não precisamos de entrar em excesso de velocidade e assim sendo, não somos parados pelo policia. Ouvimos um podcast relaxadamente na ida para o trabalho a medida que sorvemos o nosso café preparado com toda a calma do mundo. Este processo serve de meditação e assim chegamos ao local de trabalho num estado emocional mais controlado. O nosso patrão ainda nos dá uma reprimenda pelo atraso mas assim que saímos do escritório, ele reconhece o nosso esforço em avisar atempadamente que iríamos chegar atrasados. Na nossa secretária, sabemos que fizemos tudo o possível para tornar o dia melhor e por isso não ficamos frustrados. Preparamos as nossas checklists diárias de tarefas e atacamos avidamente. A nossa produtividade está dentro do esperado e quando acaba o turno, estamos exaustos. Queremos mesmo dizer aos nossos amigos que nao vamos para a happy hour, mas prometemos que iriamos e assim acabamos por ir ao bar.  Passado uma hora, quando estivermos a contar a história do alarme, todo o grupo se ri disso e começa a relembrar histórias similares. Quando finalmente deitamos a cabeça na almofada, temos um sorriso no rosto. Sabemos que no dia seguinte haverao novos desafios e com esse pensamento, adormecemos.

 

O primeiro dia foi cheio de comportamento reactivo. Deixamos que a circunstância e a emoção fabricassem vitimas em nos. Já durante o segundo dia, adoptamos uma postura proactiva e fizemos o melhor de uma situação já de si má. Enquanto nenhum dos dois possa ser considerado um dia perfeito, o segundo foi definitivamente positivo.

 

O mesmo se aplica quando perde alguém que amamos. Sim, podemos decidir enterrar a cabeça na cama com quilos de comida, mas só tempo a passar não vai fazer nada senão fazer a única coisa que sabe fazer - passar.  

 

Temos de sair para o mundo e fazer o melhor de uma situação má. Temos de praticamente preencher a fossa nunca substiuindo o que foi levado mas procurando novo conteudo emocional.

 

 

Quem sabe, talvez acabemos por gostar daquilo que encontremos para lá por.